28 de agosto de 2008

'No gargalo': O novo castelo do papa

No jargão jornalístico, matéria recomendada (ou reco) é aquela que os chefes, por interesse próprio, mandam os repórteres fazerem. Pois bem, meus caros, a postagem de hoje é "reco" total. Minha amiga e chefa neste blog caiu de amores pelo Châteauneuf-du-pape e, assim como que não quer nada, me mandou a letra: "Claudinha, quer escrever sobre a parada do chateauneuf, não?" Eu, que manjo a figura há milênios, entendi a mensagem.

Bem, Châteauneuf-du-pape é uma cidade do sul da França e também uma denominação de origem controlada. Tudo começou com a chegada dos papas a Avignon durante a Idade Média. E, vocês sabem, naquela época onde tinha padre, tinha vinhedo (sim, devemos isso de bom à Igreja Católica. Os religiosos foram os primeiros grandes vinicultores da história).

Aí, no século XIV, o papa Clemente V plantou várias cepas e começou a produzir o vinho que abasteceria toda região de Châteauneuf. O negócio bombou. A Igreja tornou-se a produtora oficial e escolheu o local para construir sua residência de veraneio. Coisa simples, um castelo. Depois, o lugar ficou conhecido como Châteauneuf-du-pape (que, em bom português, significa 'novo castelo do papa') e, por volta dos anos 20 foi sacramentada como denominação de origem controlada.

Para este vinho, a lei francesa permite a utilização de 13 uvas, mas em geral, predomina a cepa grenache, mesmo nos
"assemblages". De fama mundial, reconhecido por sua garrafa bojuda com o selo das armas papais, este vinho tem força e elegância. Tem potencial de guarda. Alguns podem segurar uns bons dez anos repousando quietinho. Portanto, nada de pressa...

Se deu vontade de comprar, pesquise antes o produtor. Esses vinhos não são baratos, mas nem todos correspondem ao encanto do nome. Santé!

* Foto do rótulo de Monica Ramalho; a outra, saqueada da web *

27 de agosto de 2008

Cartola por Sacramento e Alcofra

O cantor Marcos Sacramento e o violonista Luis Flávio Alcofra, dois queridos meus, apresentam o show 'Amor de Cartola' nesta quinta, às 12h30, no térreo do belíssimo Centro Cultural Light (Avenida Marechal Floriano, 168, Centro). No roteiro, só aquelas maravilhas do criador da Mangueira. A entrada é grátis, com distribuição de senhas uma hora antes do espetáculo.

"A dupla reviverá as despedidas, o abandono, as perdas, enfim, todo o amor deixado por Cartola em forma de música numa homenagem aos 100 anos deste genial compositor", diz a amiga Maria Braga, produtora do show.

* Foto de divulgação *

25 de agosto de 2008

'Verdades a granel' por Moacyr Scliar

"Somos os únicos seres capazes de iluminar nossa culpa. E culpa iluminada é culpa domada. Iluminado, o dedo acusador deixa de ser um algoz para ser simplesmente um dedo, parte do nosso corpo, parte da mão que nos fez humanos".

* Frase de Moacyr Scliar e foto de Three Lions *

24 de agosto de 2008

Previsão para ontem

Todas as coisas são conjuntos de partículas
buscando multidão,
mas de perto são ridículas...

No entanto, as coisas vão se unindo sem noção
de que são o contrasenso
de si mesmas, pois a união

requer desprendimento – e então viver propenso
a vestir o desmando
e sumir no mundo imenso

até que nem se lembre mais de onde ou quando
foi presente, passado
mas nunca o futuro. E estando

agora em tudo que é possível ser pensado,
como quem se motiva
até o sonho é o resultado

da música indelével que, na noite viva,
tão perto e tão distante,
brota assim, feito saliva

e volta a ser partícula, mínimo instante
de fuga, espera e esquiva
e só assim segue adiante.

* Poema do amigo Henrique Rodrigues *

22 de agosto de 2008

A mandioca da Camila Rhodi

Quando a humanidade me interessava mais - e nem faz tanto tempo assim -, eu gostava de apresentar as pessoas mencionando nome, sobrenome, profissão e um detalhe curioso ou certa característica extravagante. E Camila Rhodi era a 'filha da Chacrete'. A menina ficava vermelha, esbravejava, pedia encarecidamente para eu não fazer mais isso. Sem resultados, lógico. 'Essa é Camila Rhodi, atriz, filha da Chacrete', continuei propagando aos quatro ventos (risos).

Outro dia, recebi um email da Camila com este flyer acima, no qual ela assume publicamente que é... 'A filha da Chacrete'! Meu coração disparou! (mais risos). Clique na imagem para saber mais sobre a peça. Imperdível, claro. Vai para o trono ou não vai?

* Foto de Renato Marques *

Hoje é o centenário de Henri Cartier-Bresson

Você pode até desconhecer a obra de Henri Cartier-Bresson (1908-2004). Mais: pode nem saber quem foi esse francês, nascido há exatos cem anos. Porém, se você gosta minimamente de fotografia, já deve muuuito a ele.

Fundador da primeira agência fotográfica do mundo, a célebre Magnum, ao lado de outras feras, como Robert Capa e David Seymour, o francês Cartier-Bresson é apontado como pai do fotojornalismo.

Para ver um punhado de imagens que ele registrou pelo mundo com a sua clássica Leica, sem zoons espetaculares ou recursos mirabolantes, clique
aqui!

* Foto de abertura da Fondation Henri Cartier-Bresson *

21 de agosto de 2008

Todos os desvios, limites e usos da dança

Artista de dança e professora da célebre Escola de Dança Angel Vianna, a carioca Flavia Meireles, 31 anos, aceitou dois convites para realizar projetos na Europa: 'Sem nome, todos os usos', iniciado em Paris com apoio do Centre National de La Danse e da Ménagerrie de Verre/ StudioLabs; e 'As coisas entre as coisas', em parceria com Marcela Levi, num programa de residências da Casa Encendida, em Madrid. Também colabora e faz assistência no trabalho de Gustavo Ciríaco 'Nada. Vamos ver' com estréia prevista para dezembro. A moça, amiga do peito, deu entrevista a este blog por e-mail. Leia a seguir:

LARANJA É A COR DO VESTIDO DELA - Nos 12 anos que acompanho a sua vida de perto, já vi de tudo (risos). Já vi você super feliz, você vendendo carro pra viajar, você ensaiando vinte horas por dia na semana da estréia ou, pelo contrário, passeando na véspera de entregar um projeto importantérrimo. Como está a Flavia Meireles por dentro em agosto de 2008?

FLAVIA MEIRELES - Que bom que você já viu de tudo, sinal de que eu não sou uma pessoa só (risos). Difícil isso de dizer como estou no momento em que estou vivendo, mas... Vamos lá: Estou com a minha energia bastante voltada pros trabalhos que estou fazendo agora e isso me dá um bem-estar enorme. Gosto de estar/viver trabalhando e estou num momento particularmente intenso. Além do projeto solo, tenho um trabalho novo com a Marcela em duo, chamado ‘As coisas entre as coisas’, e estou fazendo assistência e colaboração no trabalho novo do Gustavo Ciríaco. Esse tempo por aqui na Europa tem sido bom pra ver isso e também pra me alimentar a alçar vôos.


LARANJA - Aliás, o seu trabalho atual, 'Sem nome, todos os usos’, tem a ver com coisas que fazem, desfazem e refazem; limites, bordas, dentro e fora. Qual foi o seu ponto de partida e a quantas anda essa experimentação toda?

FLAVIA
- A experimentação continua, pois esse é um trabalho que iniciei aqui em Paris e que não está concluído. Ele está se fazendo e me refazendo. Tenho um material no qual me debruçar e agora é construir. Sinto que tenho um campo a trabalhar, um campo de pesquisa. Ainda não tenho previsão de mostrá-lo como um trabalho acabado, mas tenho mostrado o processo para algumas pessoas e isso enriquece bastante, pois me dá outros pontos de vista. Achei esse título numa marca de alimentos. O que me interessa no nome é a possibilidade de inventar usos, de se colocar em polissemia e tem a ver com o que gosto na linguagem que é dela atuar como motivação do imaginário, de ser aberta, esburacada, parcial e inventiva. Fazendo e se refazendo. A idéia de bordas, limites veio de maneira bem prática, a partir das experimentações na sala de ensaio que sugeriam isso. Além disso, um poema do Joan Brossa me caiu nas mãos, chamado 'Puente':

Este es el camino
Que sirve para pasar
Del poema anterior al siguiente.

Pra mim este poema tem muitas ressonâncias nas quais gostaria de tocar que dizem respeito a limite, instabilidade, caminho/caminhar, coisas que geram coisas, respostas que perguntam.

LARANJA - Nos textos que você mandou, encontrei referências a objetos em cena. Lembro de você pendurada na parede com o Paulo Caldas, mas nunca abraçada a uma cabeça de boi, por exemplo, como faz a Marcela Levi. É influência da Marcela?

FLAVIA - Li recentemente um pesquisador que diz que nosso corpo é formado por todos os lugares onde deixamos impressões digitais, fazemos cocô, beijamos, tivemos relações afetivas e lugares onde deixamos qualquer tipo de marca, mesmo que invisível. Estou dizendo isso porque você me pergunta sobre influências. E é comum pensarmos nelas como algo linear, claramente identificável, onde a gente vai achar o xis da questão, a origem. Mas eu acredito que elas são tão ramificadas como essa leitura do corpo desse pesquisador que falei. É preciso ter alimentos de muitos lugares e a Marcela está aí também. Em relação a objetos tem Marcela, Marina Abramovic, Cildo Meireles, Leonora de Barros e Joan Brossa, de maneiras bastante distintas entre eles. E também está o Paulo, além de coisas que ainda não me dei conta. Então, mais que buscar minhas influências (elas já vão estar lá, não preciso buscá-las), o importante é antropofagizar, tornar algo outro, transformar. Esse é o trabalho...


LARANJA - Ah, e achei outra questão que me encantou: desvio, torção, ambiguidade. Eu adoro desvios! Adoro encontrar um amigo na entrada da padaria e acabar seguindo com ele prum cinema. Gostaria que falasse um pouco sobre isso também, flor.

FLAVIA - Pois é... Isso também me encanta. E é uma coisa dificílima, pois o desvio não dá pra ser planejado, senão não é desvio (ha!). Estava pensando hoje que uma coisa que me interessa criar em cena são proposições claras e ambíguas, quero dizer, coisas que as pessoas percebam, mas não sejam passíveis de afirmar. Os nossos sentidos são assim, sentimos coisas, cheiramos, vemos, degustamos, eles são ao mesmo tempo claros e são uma suspeita de algo, não uma afirmação definitiva. Eles são passíveis de mudar, de se transformar. Por isso trabalho a partir da percepção. Por isso duplo sentido, jogo de palavras, associações indiretas têm muito valor pra mim. É por elas que tocamos a ambiguidade. Gosto de palavras com duplo sentido e de torções como a do Juan Brossa que pegou o símbolo da marca Volkswagen e colocou Volkswagner. Adoro esses lapsos que criam outros sentidos. Adoro também o conceito de indeterminação, do Cage (John, músico, pensador inspirador do movimento Fluxus e companheiro-colaborador de Cunningham) que conversa muito bem com a ambiguidade e que tem a ver com vários sentidos ao mesmo tempo.

LARANJA - O que você gostaria de destacar de Paris e colar no Rio de Janeiro?

FLAVIA - A infra-estrutura que se pode ter pra trabalhar com dança. Ter políticas públicas CONTINUADAS para a cultura. Ter investimentos pra cultura e não achar que cultura é artigo de luxo, supérfluo. Quem disse que cultura não enche barriga? Cultura gera saber, emprego, lazer, agrega pessoas e outras coisas mais. E não tô falando de um ponto de vista marqueteiro, pra tentar fazer a arte ser vendável (pois acredito que certos investimentos em arte não dá o lucro de imediato), mas sim interesseiro, que dialoga, critica e reflete a sociedade em que vivemos.

Ter o mínimo de infra-estrutura significa que os trabalhos podem surgir como um trabalho e não como uma gambiarra ou como aquela piada em que o cara pergunta “você trabalha com o que?” e, se você responde “dança”, ele vai te perguntar de novo “mas o que você faz?”. E a política pras artes tá mudando muito aqui na França, ficando mais neoliberal (flexível e inexistente ao mesmo tempo) mas, pelo menos, ainda tem infra-estrutura e tem possibilidades de novos modelos de produção (porque também tem dinheiro que vai pra esse fim).

Não gostaria, entretanto, de colar um modelo francês, mas sim, de novo, de antropofagizar, como nossos queridos doces bárbaros faziam, misturando ritmos, línguas e sons e achando uma mistura própria. Gostaria que em nossa cidade pudéssemos fazer nossa mistura, que tem gambiarra sim, mas que não se apoia nela.

LARANJA - E por falar nisso, caramba, quando a mocinha volta pra casa?

FLAVIA - Essa é fácil: 29 de agosto, sexta sem ser esta, a outra, às 17h30 no horário daí!

* Fotos de Micheline Torres *