23 de outubro de 2008

Mochilas prontas: Paraty

Gente, a recompensa por um ano de pitombeira nos textos,
nas assessorias de imprensa e nas gambiarras criativas virá
em forma de ruas de pedras, ilhas cercadas por peixinhos e arquitetura colonial: a partir desta sexta, dia 24, vamos descansar uma semana em Paraty.

Vou levar o notebook e o celular, mas espero usar pouquíssima tecnologia e passear um bocado de escuna, tomar sorvete e cachaça na pracinha, fotografar aquele cenário de novela de época e namorar muito - como se a vida inteira fosse feita sob medida para a calmaria. Volto já!

* Foto de JA Gálvez *

21 de outubro de 2008

Flores para Luiz Carlos da Vila

Este blog se despede do compositor e cantor de sambas e afins Luiz Carlos da Vila, um garoto de 59 anos. O poeta morreu na manhã desta segunda, no mesmo Hospital do Andaraí onde Cartola e eu nos operamos. Luiz Carlos estava internado há 40 dias, lutando contra um câncer reincidente no estômago. Já havia passado pela mesa de cirurgia em 2002, antes de lançar dois discos fenomenais que rodam tanto aqui na vitrola que considero trilhas sonoras da minha vida: 'Benza, Deus' (Carioca Discos, 2004) e 'Matrizes' (MEC, com recursos da Petrobras, 2005), em parceria com o amigo Cláudio Jorge.

Foi com o seu samba-enredo "Kizomba, a festa da raça" que a Vila Isabel conquistou o primeiro título no desfile das escolas de samba cariocas. Entre os maiores sucessos estão "O show tem que continuar", "Doce refúgio" e "Além da razão". A foto que ilustra este post foi escolhida de propósito: vai uma braçada de flores do campo para Luiz Carlos da Vila!

* Foto de Camilla Maia *

17 de outubro de 2008

A alma encantadora de João Roberto Kelly

Para quem é apaixonada por música brasileira como eu, não há nada mais emocionante do que conhecer figuras como o querido João Roberto Kelly, dos maiores autores de marchinhas de carnaval de todos os tempos. Ele e a simpática Maria Helena me receberam no apê deles, em Copacabana, para uma prosa regada a cervejinhas e boas lembranças. Abaixo, um trecho da entrevista - publicada na Carioquice deste mês - e o link para você ler na íntegra:


A história da televisão brasileira e, sobretudo, das geminais TV Excelsior e TV Rio não teria a mesma sonoridade sem as 88 teclas e as inumeráveis melodias de João Roberto Kelly, 70 anos de vida e 50 dedicados à música nacional. Compositor e pianista de musicais humorísticos nos idos 1960, Kelly usava toda a criatividade da juventude nos célebres ‘Times Square’, ‘My Fair Show’ e ‘Praça Onze’, entre outros, cujos diretores o convidavam para ser uma espécie de compositor residente dos programas. Isso até ele virar apresentador do seu ‘Musikelly’, criado na TV Rio e reeditado na TV Globo, já no final da década.

Em 1963, João Roberto Kelly foi trabalhar na TV Excelsior através de Luís Reis, também pianista e compositor. Kelly foi contratado pelo diretor artístico Miguel Gustavo para fazer aberturas de programas. No mesmo ano, a emissora adquiriu o Cinema Astória, em Ipanema, para transformá-lo em teatro. “Até que um belo dia o Carlos Manga me chamou para musicar os quadros do ‘Times Square’, inspirado nos espetáculos da Broadway. Os atores cantavam, dançavam e representavam. Para cada quadro havia uma vinheta e eu caí feito luva nesse esquema”, recorda.


Leia a entrevista na Carioquice!

* Foto de Adriana Lorete *

16 de outubro de 2008

'No gargalo': frases inspiradas no vinho

Sabemos que o vinho sempre provocou paixões e frases inspiradas. Hoje, só pra relaxa,r escolhi umas máximas espirituosas de autores célebres - e outros nem tanto.

"O Burgundi faz você pensar besteiras, o Bourdeux faz você falar besteiras e o Champagne faz você fazer besteiras" (Brillat-Savarin)
"O bom vinho é um camarada bondoso e de confiança, quando tomado com sabedoria" (William Shakespeare)
"O vinho e a música sempre foram para mim um magnífico saca-rolhas" (Anton Tchékhov)
"Os vinhos são como os homens: com o tempo, os maus azedam e os bons apuram" (Cícero)
"O vinho é a prova constante de que Deus nos ama e nos deseja ver felizes" (Benjamin Franklin)
"O vinho é uma bebida excelente para o homem, tanto sadio como doente, desde que usado adequadamente, de maneira moderada e conforme o seu temperamento" (Hipócrates)
"O vinho que se bebe com medida jamais foi causa de dano algum" (Miguel de Cervantes)
"O vinho foi dado ao homem para acalmar suas fadigas" (Eurípedes)
"O vinho alegrará o coração do homem" (Vulgata)
"O vinho alegra o coração do homem. Jamais um homem nobre odiou o vinho" (François Rabelais)
"O vinho é composto de humor líquido e luz" (Galileu Galilei)
"Vence as preocupações com o vinho" (Petrônio)

Beijos e até mais!

15 de outubro de 2008

André Mehmari, o menino do dedo verde

Foi paixão imediata. O violonista Paulo Aragão elogiou as músicas do disco '... de árvores e valsas' num dia e esbarrei por acaso com o álbum no outro. Se gostei? Digamos que levei uns 15 dias falando de 'Um anjo nasce', 'Mairiporã', 'Noturno espanhol' e seus pares para todo mundo - inclusive à amiga Helena (irmã do Paulo) Aragão. Ela se entusiasmou e propôs escrever a quatro mãos sobre o André Mehmari para o site Overmundo, do qual é editora.

Apresentado virtualmente pelo querido Flávio Loureiro, o músico topou a proposta e, na primeira vinda ao Rio, nos recebeu para a entrevista. O que a gente tanto proseou você pode ler a seguir:

Instrumento ali não fica em cativeiro. Case é como roupa para os humanos: vestimenta para sair de casa em ocasiões especiais. Pela sala tem clarinete, bateria, rabeca, violão, guitarra. Tem até um cravo, porque gosta-se muito do estilo barroco. No centro (não por questão de ângulo, mas de relevância), o piano, absoluto. E passando por tudo isso sem derrubar uma palheta, Miguilim. Porque gato é um bicho muito sensível. “Os instrumentos ficam espalhados. A pessoa quer sentar no sofá e não pode: tem um cavaquinho ali”, ilustra, com um sorriso desenhado na boca, o multiinstrumentista André Mehmari, um peso-pesado no quesito música brasileira contemporânea.

Leia o texto completo no Overmundo!


* Foto de Gal Oppido *

12 de outubro de 2008

Um domingo animal!

A curiosidade matou o gato (risos)

Não parece um tigrinho?

A suavidade da gaivota num céu dramático

Um vôo em cabine dupla!

Fotos de Monica Ramalho *

11 de outubro de 2008

Há cem anos, nascia Cartola

Entrevistei Ronaldo de Oliveira, filho adotivo de Zica e Cartola, em 2002 para a pesquisa do musical 'Obrigado, Cartola!'. Dois anos depois, lancei um livro infanto-juvenil sobre o compositor, sem recorrer a este material porque a proposta do 'Cartola' (que faz parte da coleção 'Mestres da Música no Brasil', da Editora Moderna) era outra. Em 2006, trabalhava no site Jornal Musical e o editor Tárik de Souza me pediu para fazer um recorte diferente do sambista. Respondi que nem precisaria apurar nada. Era só transcrever a fita e organizar as falas do herdeiro. Esta matéria é para ser lida ao som dos álbuns maravilhosos deste autor mais do que genial:

Um lado desconhecido de Cartola
Por Monica Ramalho

"Eu não sabia dimensionar o que era conviver com o Cartola. Poderia ter aproveitado muito mais, entende?", arrepende-se Ronaldo de Oliveira, adotado aos 15 anos pelo sambista e por Dona Zica. Ele lamenta pelos tantos shows que não assistiu do pai de criação e também pelas vezes em que se limitou a deixá-lo na portaria dos estúdios, como numa das últimas gravações, na RCA Victor. "Notei que ele queria que eu acompanhasse. Por que não fiquei lá?", indaga a si mesmo. Além da relação árdua entre ambos, Ronaldo era taxista e, na época, estava mais empenhado em bater a féria do dia. No entanto, estas ausências lhe doem no peito até hoje. "Como alguém pode ser tão próximo e tão distante?".

Autor de clássicos como "As rosas não falam", "O mundo é um moinho", "Tive sim", "Quem me vê sorrindo" (com o fiel parceiro Carlos Cachaça) e "Disfarça e chora" (com Dalmo Castello), Cartola era também um homem duro, quase rude, no trato com as pessoas de casa, segundo as lembranças de Ronaldo. "Eu já existia quando o Cartola foi morar com a Zica. E ele não gostava de criança, não queria que ela me criasse, então tudo era muito difícil. Ele bebia além da conta e nós éramos pobres demais. Ele implicava comigo e eu implicava com ele, embora hoje eu dê valor a muitas de suas atitudes", emenda. Apesar do tratamento áspero, o sambista modelou o caráter de Ronaldo com muitas de suas lições.

De uma delas, em especial, o herdeiro não esquece. "Quando tinha uns 16 anos, fiquei desempregado. Cheguei para ele e falei: 'Seu Cartola, amanhã não precisa me chamar às 6h porque eu fui mandado embora'. Ele respondeu: 'Tá bem', mas quando chegou no outro dia, Cartola foi lá me acordar no mesmo horário de sempre. Eu reclamei e ele disse: 'Eu sei, meu filho, mas levanta e vai procurar um emprego. Ou então faz alguma coisa, varre o quintal, arruma o armário, sei lá, ou você vai se acostumar a levantar tarde e não vai mais procurar emprego'. Fui forçado a sair atrás de um trabalho", diz o filho, atualmente funcionário do Departamento de Trânsito do Estado do Rio de Janeiro (Detran-RJ). Com o avançar dos anos e dos carinhos de Zica, porém, "o coração dele se abriu, pouco tempo depois ele era pessoa mais dócil".

Naturalmente, também havia momentos de pura má vontade entre os dois. Ronaldo lembra de um aniversário decorado com aquele bolo de chocolate maravilhoso da mãe, a famosa cozinheira Dona Zica, família reunida, um monte de primos da idade dele para brincar até altas horas. "Tomei um banho rapidíssimo e ele me esperou sair do banheiro para dizer: 'Ô, Ronaldo, não é possível que você tenha tomado banho em um minuto. Volta para o chuveiro' e ficou na porta me esperando, com o relógio na mão". Como se vê, Ronaldo conheceu um lado pouco visível do compositor que, apesar de silencioso, estava sempre cercado de amigos.

"Ele chegava no botequim e não pedia nada a ninguém, por nada. Podia estar morrendo de vontade de tomar uma cerveja, mas não pedia se não pudesse pagar. Isso eu aprendi com ele e ainda sou um pouco assim. Então quando ele estava com pouco dinheiro, comprava uma cerveja que se chamava 'mini-saia'. Era pequena e, por isso, ele não precisava dividir com os outros". Em tempos mais abastados, Cartola gostava mesmo era de beber Antarctica e Pau Pereira, uma cerveja amarga. Também molhava o bico com conhaque Dreher e fumava cigarro Astória. "Cartola via televisão e lia jornal todo santo dia. Podia não ter dinheiro para mais nada, mas não abria mão do jornal. E era fanático pelo Fluminense", afirma.

Em matéria publicada em março de 1978, disse Cartola: "É bom ter a casa cheia de amigos, mas não todos os dias. Procurei um cantinho para repousar e ter um pouco de sossego. E quero uma casa com todo o conforto, com tudo novo, tudo bonito". A última moradia do sambista – numa casa confortável da Rua Edgard Werneck, em Jacarepaguá – é, há muitos anos, a residência de Ronaldo e família. “Cartola sentava ali numa cadeirinha gostosa com tudo apagado e ficava horas olhando pro nada. Quanto mais escuro, melhor. Ele era uma pessoa muito interessante e ficava parado na mesma posição por muito tempo. Ele adorava a solidão e veio morar aqui por causa disso", recorda.


Cartola: "Só venci no final"

O verso é do amigo Nelson Cavaquinho, mas Cartola foi um dos criadores do samba carioca que mais receberam flores em vida. As homenagens perduram até os dias atuais. Em 2007, o cinema exibiu o documentário 'Cartola', dirigido por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. A inventividade do compositor também já inspirou um musical em 2003 - 'Obrigado, Cartola!', sob a batuta de Vicente Maiolino -, meia dúzia de livros (com destaque para a biografia 'Cartola, os tempos idos', de Marilia Barboza Trindade e Arthur Oliveira Filho) e dezenas de discos e shows, idealizados por amigos e admiradores da obra do mestre mangueirense, e há também o Centro Cultural Cartola, idealizado por Zica e comandado pelos netos Nilcemar e Pedro Paulo Nogueira, filhos de Regina, também criada pelos Oliveira.

Fundador da Estação Primeira de Mangueira e responsável pela escolha do verde-e-rosa da escola, Cartola foi um dos artistas brasileiros de mais idade a lançar disco solo. Em 1974, aos 65 anos, gravou seus sambas num álbum individual, editado pela Marcus Pereira. Em 1976, gravou outro disco, pela mesma gravadora, ambos chamados apenas 'Cartola'. Em 1977, lançou 'Verde de que te quero rosa' e, dois anos depois, 'Cartola 70'. Alguns meses antes de morrer, foi convidado a gravar um depoimento na Rádio Eldorado, onde narrou episódios marcantes de sua história e cantou suas belas músicas. Esta entrevista chegou ao mercado no ano seguinte com o título 'Cartola – Documento inédito'. Todos estes long plays foram relançados em CD.

"Minha vida é igual a filme de mocinho. Só venci no final", resumiu o sambista, que foi dono, com a mulher Zica e empresários, do célebre Zicartola. Mais de quarenta anos da inauguração do bar – que funcionava na Rua da Carioca, 53, Centro do Rio - e ele ainda é considerado um divisor de águas na história da MPB. "Foram os melhores anos da minha vida. A casa era freqüentada pela fina flor de Copacabana e pelo mais humilde sambista do morro, pois o Zicartola conseguiu integrar os compositores da bossa nova com aqueles que fizeram os inesquecíveis sambas cantados até hoje", comentou Zica, em fevereiro de 1988, no Jornal do Brasil.

Em entrevista ao jornalista Tárik de Souza, em novembro de 1974, Cartola revelou como fazia para compor: "Eu não tinha interesse nenhum por leitura. Mas um dia, quando eu estava mais ou menos com 25 anos, um primo me deu um livro de poesias de Humberto de Campos e eu gostei muito e passei também a ler Castro Alves e Guerra Junqueiro. Tem letras que vêm quase prontas. Outras vêm só com um pedacinho. Ponho num rascunho e guardo num canto até vir a inspiração. Prefiro fazer pouco mas fazer bem". Essa era a filosofia do sambista que, desde criança, quando saía nos ranchos carnavalescos de Laranjeiras, apreciava boa música e elegância, hábitos aprendidos com os pais Sebastião, cavaquinista, e Aída, sempre muito caprichosa com as fantasias do primogênito de oito irmãos.

"Um dia, o Mário Reis me comprou um samba por 300 cruzeiros. Era um dinheirão. Dava pra comprar um terno, mas terno bom, de linho branco, sapato, camisa, tudo. Gastei em roupa, em bebida e farra", confessou. Francisco Alves foi o primeiro cantor a gravar uma música de sua autoria ("Que infeliz sorte!", em 1929) e, coincidentemente, seu primeiro sucesso popular ("Divina Dama", em 1933). Nestas oito décadas, a obra de Cartola – que ganhou este apelido quando defendia um trocado como pedreiro e, muito vaidoso, usava um chapéu-coco para proteger os cabelos do cimento – varreu o mundo e ingressou de uma vez por todas no primeiro time da Música Popular Brasileira.

* Fotos do amigo Antônio Carlos Miguel, publicadas no meu livrinho que gosto tanto e no especial sobre o centenário do poeta mangueirense, nas páginas do Segundo Caderno deste sábado *