20 de fevereiro de 2008

Paixão par avion



Um dos livros mais delicados que existem no mundo chama-se 'Cartas perto do coração' (Record, 2001) e nada mais é do que a reunião de missivas trocadas pelos (então jovens) escritores Fernando Sabino e Clarice Lispector entre os anos 40 e 60. Eram carinhos à distância, com a caligrafia lambuzada de sentimentos e, imagino, o cheiro daquela época. Uma gota do perfume de Clarice. Uma flor desenhada na lateral da página por Fernando. Os dois viveram uma paixão de cinema. Eram casados - ele com Helena; ela com Maury - num tempo em que traição era palavra amaldiçoada.

Caí na asneira de emprestar a minha edição há anos e a pessoa não devolveu, mas, por sorte, achei outro dia um exemplar avulso nas prateleiras da Argumento. Reproduzo aqui um trechinho - apaixonado - saído da esferográfica de Fernando:

"Clarice Lispector é uma coisa riscadinha sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo no vento na chuva, molhou o vestido, perdeu o chapéu. Clarice Lispector sabe rir e chorar ao mesmo tempo, vocês já viram? Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre. Me escreva uma carta de 7 páginas, Clarice".

(Reprodução da capa, assinada por Dounê Spínola)

Um comentário:

Flavia disse...

que coisa mais linda...